US AIR FORCE / AFP

“As meninas estão dormindo”, me disse ontem à noite o meu marido, aqui na Itália. Eram umas nove da noite, depois da costumeira maratona de historinhas para dormir, pulos na cama, dentes a escovar, pijamas a vestir e mais historinhas para dormir.

As crianças dormem e ai de quem acordá-las. As crianças fecham os olhos e você se pergunta por quais sonhos estarão vagando. As crianças respiram fundo e os pais entendem que, mais uma vez, uma jornada terminou.

As crianças dormem em paz e há uma mamãe e um papai felizes. As crianças puxam o lençol e se sentem no lugar mais seguro do mundo, onde bicho papão nenhum consegue alcançá-las.

Dormem as crianças do Afeganistão

Também em Cabul adormecem as crianças, mesmo à sombra dos arames farpados do aeroporto, até que, entre o susto e as lágrimas, sejam acordadas por rajadas de balas e por estrondos de decolagens.

Dormem as crianças afegãs e, nesta noite, as mães acariciarão as suas testas, perguntando-se o que vão descobrir lá fora aqueles olhinhos quando acordarem. O mundo mudou tanto da noite para o dia que, talvez, deste pesadelo não se acorde tão cedo.

A criança no avião americano: a beleza em meio à dor

As crianças do Afeganistão desabam exaustas no avião que as leva para longe, para um futuro que daqui não se vislumbra mais. Como o pequeno da foto, evacuado num cargueiro americano em 15 de agosto, com outras mais de seiscentas pessoas. A jaqueta de camuflagem militar no lugar de um ursinho de pelúcia. Dorme como as minhas filhas.

Dormem as crianças, elas que são a mais maravilhosa visão do mundo – inclusive no meio da guerra; inclusive apesar da guerra, que quer tirar o seu direito à beleza.

Esperamos que, ao menos em seu sono, eles estejam a milhões de quilômetros do sofrimento, dos gritos, daqueles que querem machucá-las. Mas elas estão longe da mãe e do pai, de casa. Da sua caminha.

Não dá mais sequer para sonhar com o amanhã: os pais tentam passar os filhos pelo arame farpado. O que fica para trás dá mais medo que a incerteza e o afastamento. As mães e os pais também sonham. E os seus sonhos são todos iguais: é por isso eu mesma sinto o seu desespero e entendo a esperança e o amor que conduzem aquelas mãos.

“Foi horrível, as mulheres jogaram seus filhos pelo arame farpado do aeroporto pedindo aos soldados que os levassem. Alguns pequenos ficaram enredados no arame”, contam as legendas que traduzem as palavras de um oficial do exército afegão num dos vídeos que deram a volta ao mundo.

Diante dos muros do aeroporto de Cabul, de onde a ponte aérea humanitária transporta pedaços de uma população desintegrada pela ocupação dos talibãs, famílias de afegãos em fuga aguardam a sua vez.

“As crianças estão exaustas, sete ficaram doentes aqui no sereno. Elas não dormem. Choram, estão com medo”, diz o papai Sakhi à agência Adnkronos.

Os suprimentos de água e comida diminuíram junto com as esperanças de sair do país. Os postos de controle do Taleban ao longo das ruas da capital tentam impedir os não estrangeiros de chegarem ao aeroporto.

Outra jornada muito difícil está para terminar no Afeganistão. Mais um dia de protestos e ao mesmo tempo de silêncio surreal nas ruas; de mulheres trancadas em casa; de medo, de tiros, de incerteza.

Apesar de tudo, também nesta noite, dormem as crianças do Afeganistão.

“Com as informações do Aleteia