O ano de 1984 marcou não só o Carnaval brasileiro, mas a televisão do Brasil.

Naquele ano, vimos uma folia diferente, exibida não pela Globo, mas pela TV Manchete, que transmitiu com exclusividade os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Na ocasião, o jornalista e empresário Adolpho Bloch (1908-1995) “passou a perna”, conforme disse José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em Roberto Marinho (1904-2003) e conseguiu com exclusividade os direitos de transmissão dos desfiles do Carnaval carioca, tirando a Globo, pela primeira vez na história, da jogada.

A festa brasileira foi assistida por 70% dos televisores da cidade carioca enquanto a Globo ficou a ver o Carnaval pela TV concorrente também. Os desfiles do RJ eram, até 1983, feitos pelas ruas da cidade, como as avenidas Marquês de Sapucaí, Presidente Vargas e Rio Branco. Com o advento da construção do sambódromo, realizado pelo governador Leonel Brizola (1922-2004) dentro da Marquês de Sapucaí, os desfiles começaram a ser realizados no local.

A obra, ideia do vice-governador do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro (1922-1997) e projeta por Oscar Niemeyer (1907-2012), teve sua conclusão em setembro de 1983 e foi inaugurada para os desfiles de 1984. As apresentações, que começavam no domingo, ganharam novo dia no novo local: a segunda-feira.

Com a novidade chegando ao Carnaval de 1984, algumas situações foram vindo à tona, principalmente a disputa político-ideológica entre a Globo, diga-se Roberto Marinho, e o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. A emissora, dirigida por Boni, alegou que a mudança dos desfiles para outro dia atrapalharia a grade de programação. Além disso, o canal alegou motivos técnicos para declinar da transmissão.

Isso teria sido o motivo principal para que a exclusividade da transmissão caísse no colo da TV Manchete. Na época, a imprensa noticiou que o canal de Adolpho Bloch desembolsou CR$ 210 milhões (de Cruzeiros, moeda da época) para obter os direitos exclusivos ao negociar diretamente com o Governo do Rio de Janeiro e tirar a Globo da jogada. O canal dos Marinhos ainda tinha esperança de que a transmissão fosse dividida entre os dois veículos, o que não aconteceu.

No entanto, essa história tem várias versões. A Globo, além da falta de estrutura técnica, não acreditava no Carnaval realizado direto da Marquês de Sapucaí. De acordo com o blog Ouro de Tolo, que cobre a festividade carnavalesca, o então narrador do Carnaval da Manchete, Paulo Stein, revelou que a Globo não confiava no Carnaval sendo realizado nos dois dias e explicou o porquê de a Manchete negociar algo que a Globo não acreditava.

“A ideia do Professor Darcy Ribeiro (então vice-governador do Rio) de fazer um estádio permanente para o samba foi encampado pelo governador Brizola, e a genialidade de Oscar Niemeyer de juntar no mesmo lugar um CIEP foi um marco. Mas Darcy Ribeiro queria estender a folia por mais um dia para dar ao povo mais tempo para se divertir na grande festa. As instalações anteriores que eram montadas anualmente em andaimes (antes da Marquês de Sapucaí, também foram erguidas na Presidente Vargas e na Antônio Carlos) custavam caro e atrapalhavam o trânsito por quatro meses, daí a ideia de se criar um espaço fixo. O professor Darcy então imaginou uma grande festa, apoteótica e vislumbrou uma grande praça no fim da pista de desfile, onde as escolas pudessem fazer uma espécie de volta olímpica e retornar. Nada mais do que certo a convocação de Oscar Niemeyer. Bem, a Globo não aceitou mudar a regra e o Boni não acreditou em carnaval de dois dias: ‘A Globo não transmite desfile em dois dias’. O slogan era sempre: ‘Programação normal e o melhor do Carnaval!’. A tradição das transmissões dos desfiles pela Globo estava quebrada. Brizola então procurou Adolpho Bloch, que comandava a recém-inaugurada Rede Manchete. E Adolpho topou: ‘A Globo pagou pra ver e perdeu!’. Foi uma surra jamais imaginada na audiência: 70% a 5% com picos de 82%. Na verdade não houve negociação. O Brizola passou os direitos para Manchete porque a Globo não acreditou no Carnaval de dois dias”, disse o narrador.

O fato é que o executivo relata em O Livro do Boni que a TV Manchete “passou a perna” na Globo em outra versão da história. “O governo, com o sambódromo na mão, assumiu a negociação dos direitos. A coisa foi engrossando e, pressionado, achei uma saída: combinei com o Moysés Weltman (1932-1985) [então diretor de programação da Manchete], que ele compraria o Carnaval sozinho e depois repassaria a minha parte. Esse compromisso foi assumido pedra e cal, depois dele ter consultado o Adolfo Bloch. Uma vez assinado o contrato, no entanto, o Weltman não me atendia mais, e o Bloch não respondia nenhum telefonema do dr. Roberto Marinho, que declarou guerra ao Adolpho Bloch. Ficamos fora do Carnaval”, revelou.

Com a exclusividade do Carnaval em mãos, a TV Manchete tratou de tirar proveito da situação e partiu para alterar sua grade de programação. A emissora deu ênfase à folia e desenvolveu diversos programas que falavam sobre a festa.

As transmissões contaram com nomes importantes de mercado, como Paulo Stein, Fernando Pamplona (1926-2013), Haroldo Costa, Sérgio Cabral, Albino Pinheiro (1934-1999), Maria Augusta, dentre outros cuja direção teve a assinatura de Weltman, Maurício Sherman e Mauro Costa (1939-2011). Além disso, a emissora enviou mais de mil profissionais para trabalharem durante 80 horas e montou uma grande operação para cobrir o evento.

Ao vivo, os comentaristas escolhiam as melhores apresentações e o público ficava ciente de cada significado das fantasias e dos carros alegóricos que entravam na avenida. A transmissão foi apontada, na época, como algo inovador.

“Logo após definir com Brizola, Adolpho chamou Maurício Sherman, que era o diretor artístico da Manchete e fazia sucesso no comando do famoso “Bar Academia” e do “Clube da Criança” com a Xuxa. Foi ele junto com Moysés Weltman e Mauro Costa, que traçaram o roteiro da cobertura. Sherman se encarregou do lado artístico e da transmissão enquanto Moysés Weltman e Mauro Costa cuidaram da parte jornalística. O aparato técnico foi responsabilidade de Francisco Cavalcanti, engenheiro da Manchete. Todos sob a tutela de Rubens Furtado, o diretor geral. A Manchete tinha o melhor equipamento, câmeras Ikegamy, superiores as da Sony na época, e todo um material técnico de primeira linha – lembra o slogan? “Rede Manchete, televisão de primeira classe!” As escolhas mais complicadas foram as dos comentaristas e eu. Quando Sherman me indicou foi uma surpresa. Adolpho perguntou: “mas ele não é locutor de futebol?” E Sherman respondeu: “é por isso que quero ele, preciso de gente que saiba improvisar; não preciso de um locutor de estúdio pra ler”. Os nomes de Fernando Pamplona, Haroldo Costa, Sérgio Cabral e Albino Pinheiro foram logo lembrados. Sherman foi pra Sapucaí, ainda um canteiro de obra, com o pessoal técnico, Mauro Costa e eu. Participei de toda a montagem das câmeras e ali ficou definido o posicionamento das 11 câmeras e da cabine, improvisada em cima de andaime na esquina da Salvador de Sá, em frente ao Espaço Candonga (recuo da bateria)”, disse Paulo Stein ao blog Ouro de Tolo.

“O carnaval é um teatro e precisa ser respeitado e mostrado como ele se propõe e não como se fosse um salão de baile. Foi essa a ideia que eu e o Pamplona sempre defendemos. O público que não entende muito vai entender melhor e quem entende se satisfaz. Artista, mulher bonita e bunda de fora também podem e devem ser mostrados, mas inseridos no desfile não como destaques”.

O então diretor de programação da Manchete, em entrevista à revista Veja, em 18 de janeiro de 1984, disse: “Queremos dar um show. Não somos nem um pouco modestos”. Ainda sobre a entrevista, a Globo tratou o fato com desdém. “Carnaval não é coisa que prenda o telespectador na cadeira”, disse João Carlos Magaldi, que era diretor de comunicação à época.

O resultado final foi uma lavada da TV Manchete na Globo. O fato teve confirmação do próprio Boni em seu livro. Com boa parte de sua programação dedicada ao evento, a TV Manchete transmitiu o Carnaval, além dos bailes e os compactos ao longo do dia. Programas especiais formaram a programação do canal que usou o slogan: “Carnaval Total, Carnaval Brasil”.

Na tentativa de barrar a festa da TV Manchete, a Globo escalou o que tinha de melhor para abater o Carnaval da concorrente. No domingo de Carnaval, depois de exibir o Fantástico, a Globo pôs em cena o filme inédito Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas, mas não obteve êxito. No confronto, a Globo via sua participação em televisores ligados chegar a 8% enquanto a Manchete engolia 70% do share da época. Desde a criação da revista eletrônica, em 1973, o Show da Vida não perdia de ponta a ponta na audiência.

Na segunda, quem foi escalado para enfrentar a transmissão da Manchete foi a novela das 20h, Champagne, de Cassiano Gabus Mendes. Roberto Carlos também foi intimado pelo canal carioca para fazer um show, programado para às 21h30 daquele dia. Logo após, em Cinema Especial, às 23h10, entrou em cena o filme Os Doze Condenados.

Para finalizar a sangria, a Globo exibia em 6 de março de 1984, após a novela das oito, o especial Coração Brasileiro, com Elba Ramalho, às 21h30. Já em Cinema Especial, às 22h40, Rede de Intrigas.

Em termos de audiência, a Globo sentiu o gosto amargo da derrota no Rio de Janeiro. No domingo, de acordo com a imprensa da época, o Fantástico e o Cinema especial viram a TV Manchete na liderança. Na segunda, conforme dados do Ibope, a TV Manchete liderou na média contra a Globo. Entre 7h e 7h15 da manhã, a TV Manchete cravou 22 pontos contra 4 da Globo e 1 ponto do SBT no Rio de Janeiro.

Já em São Paulo, os índices oscilaram entre 3 e 5 pontos de audiência ao longo da transmissão e do Fantástico, os filmes e a novela das 20h não tiveram seus índices afetados.

Uma cobertura fria e amarga da Globo

Enquanto isso, no Jardim Botânico, a Globo fazia apenas uma cobertura jornalística da festa com flashes. Usando o slogan “Programação Normal e o Melhor do Carnaval”.

“No Rio, a Manchete deitou e rolou na audiência, mas, no resto do Brasil, sem Carnaval, a programação da Globo cresceu em relação aos anos anteriores. Essa é a verdade completa da história. O Brizola, de forma demagógica, tentou inventar que a Globo quis boicotar o sambódromo. Uma infantilidade. Não iríamos perder o evento por causa disso”, contou Boni em sua biografia.

Em 8 de março de 1984, Moysés Weltman declarou ao Jornal do Brasil que a concorrente usou boas táticas para conter o Carnaval da Manchete.

“Certamente, tínhamos boas expectativas, e a Globo se armou bem com especiais de Gilberto Gil e Roberto Carlos, bons filmes como Rede de Intrigas e Doze Condenados, com a competência que ninguém lhe nega. Mas para a TV Manchete a cobertura do Carnaval equivale a uma segunda inauguração”.

Em 14 de março de 1984, a revista Veja trouxe os números de audiência respectivos à TV Manchete, que viu seus índices serem catapultados no Rio de Janeiro, mas não no resto do Brasil. No entanto, o fato não tirou o ânimo dos profissionais da emissora da Rua do Russel.

“Nem nos meus sonhos mais delirantes imaginei que poderíamos obter índices tão expressivos de audiência”, disse Weltman, à época.

“Quanto à Manchete, foi para ela uma ‘vitória de Pirro’ [expressão que designa quando se conquista uma vitória dispendendo muitos esforços e reforços]. Cutucou o leão com vara curta. Nós, que éramos aliados deles, passamos a considerá-los inimigos e, como a característica da Globo foi sempre a de um corredor de fundo, de longa distância, a Manchete sofreu muito com o não cumprimento do acordo”, finalizou Boni em seu livro.

Um ano depois, em 1985, a Globo voltou a transmitir o Carnaval do Rio de Janeiro junto com a TV Manchete. Na Marquês de Sapucaí, naquele ano, as logomarcas da TV Globo e da TV Manchete reinavam lado a lado, dando outro ar à cobertura. Repórteres dos dois canais disputavam os entrevistados como nunca se viu antes.

De acordo com reportagem da revista Veja, de 13 de fevereiro de 1985, foi criada uma transmissão para Globo, TV Manchete e Band. As três emissoras, juntas, pagaram 1,7 bilhão de Cruzeiros à RioTur, para obterem os direitos da transmissão.

Globo e Manchete fizeram do Carnaval uma grande festa e rivalizaram com a folia em suas grades de programação. A disputa fez com que tudo virasse motivo para algum tipo de conteúdo nos principais programas dos canais.

No entanto, em 1993, a TV Manchete já apresentava sinais de desgaste financeiro e não teve como exibir o desfile carnavalesco pela primeira vez. No ano seguinte, porém, a emissora da família Bloch voltou ao combate, mas em 1999, acabou por sair do ar ao decretar falência.

Desde 1984, única exceção, o Carnaval nunca deixou a telinha da Globo. A única vez foi em 2021, já que a festa foi cancelada devido à pandemia de Covid-19.

Fonte:RD1