O procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, manifestou em mensagens receio de comentar o caso Flávio Bolsonaro para não desagradar o governo Jair Bolsonaro.

As mensagens trocadas entre membros da Lava Jato foram reveladas neste domingo (21) pelo site The Intercept Brasil. Elas fazem parte de um pacote que o site afirma ter obtido de uma fonte anônima e inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram.

Flávio é investigado no Rio de Janeiro devido a movimentações atípicas suas e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz identificadas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no âmbito da Operação Furna da Onça, que mirava deputados estaduais.

A reportagem deste domingo mostra troca de mensagens entre Deltan e colegas em dezembro passado, quando a movimentação financeira de Queiroz veio a público, incluindo um repasse de R$ 24 mil para a atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Com o também procurador da Lava Jato Roberson Pozzobon, Deltan discute de que maneira deve se pronunciar a respeito do caso. “Não podemos ficar quietos, mas é neste momento um pouco como com RD [Raquel Dodge, procuradora-geral]. Vamos depender dele pra reformas… Não sei se vale bater mais forte.”

A conversa não deixa claro se Deltan se refere a Jair Bolsonaro ou a Sergio Moro, que à época já tinha sido indicado para o Ministério da Justiça e sofria críticas por não se manifestar a respeito do caso Queiroz.

Pozzobon responde: “Pois é. Estou na msm dúvida”.

As mensagens são reproduzidas tal qual aparecem nos arquivos obtidos pelo Intercept, mantendo eventuais erros de digitação e normas da língua portuguesa.Momentos antes, em chat coletivo com outros procuradores da força-tarefa de Curitiba, Deltan havia analisado o impacto do caso Queiroz sobre a Lava Jato e sobre Moro.

Disse que certamente seria questionado a respeito do caso Flávio em entrevistas e que não teria como desviar do tema, embora pudesse tratar do assunto em “diferentes graus de profundidade”.

“É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”, escreveu Deltan, após enviar no grupo o link de uma reportagem na qual o presidente Bolsonaro justifica o cheque de R$ 24 mil repassado por Queiroz para Michelle como pagamento de uma dívida pessoal.

“Moro deve aguardar a apuração e ver quem será implicado. Filho [Flávio] certamente. O problema é: o pai vai deixar? Ou pior, e se o pai estiver implicado, o que pode indicar o rolo dos empréstimos? Seja como for, presidente não vai afastar o filho. E se isso tudo acontecer antes de aparecer vaga no supremo?”, disse Deltan, em referência à possibilidade de Moro ser indicado a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

O coordenador da força-tarefa disse ainda que uma possibilidade seria Bolsonaro aparelhar a Procuradoria-Geral da República e especulou sobre qual seria a reação do atual presidente: “o quanto ele vai bancar a pauta Moro Anticorrupcao se o filho dele vai sentir a pauta na pele?”.

Pozzobon, nessa conversa, afirma: “Acho que Moro já devia contar com a possibilidade de que algo do gênero acontecesse. A questão é quanto ele estará disposto a ficar no cargo com isso ou se mais disso vir”.

Em outra conversa, em janeiro passado, Deltan encaminha um pedido de entrevista feito a ele pelo Fantástico, da TV Globo, sobre o foro especial. Dois procuradores falam sobre o problema de uma “bola dividida”, em referência a declarações sobre o caso do filho do presidente.

“O ruim é a bola dividida. Mas não dividir pode ser pior. Fica seletivo”, disse Antonio Carlos Welter.

Mensagens

Em 9 de junho, o site The Intercept Brasil divulgou pela primeira vez mensagens que mostram colaboração entre o então juiz Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol quando ambos integravam a força-tarefa da Operação Lava Jato.

Moro, que hoje é ministro da Justiça do governo Bolsonaro, foi o juiz responsável pela operação em Curitiba. Ele deixou a função ao aceitar o convite do presidente, em novembro, após a eleição.

O site informou que obteve o material de uma fonte anônima, que pediu sigilo. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram, de 2014 a 2018.

Em 23 de junho, a Folha começou a publicar, em parceria com o The Intercept Brasil, material com base nas mensagens trocadas entre os membros da operação. Com as informações do portal Noticias ao minutos.

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