Relatório da Líder-DPVAT coloca Teresina entre as cinco capitais mais violentas no trânsito e dados da Strans revelam quais as principais multas.

Há um mês e meio, imagens de um motociclista “justiceiro” nas ruas de Teresina viralizaram nas redes sociais. A ação do homem que se filmava depredando radares móveis foi aclamada por muita gente, pessoas que acreditam que existe uma espécie de “indústria da multa” na capital. Na prática, os equipamentos espalhados por ruas e avenidas da cidade têm a função disciplinar o trânsito, mas, para muitos, o trânsito poderia ser melhor sem as normas que visam, acima de tudo, o bem-estar dos motoristas, passageiros e pedestres.

Para quê tanta aversão a medidas que visam democratizar o espaço público destinado ao tráfego de veículos (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

Então, a depredação do patrimônio público, em especial de equipamentos caros e que tem por objetivo possibilitar a harmonia no trânsito, deveria mesmo ser tão aclamada?! O que estaria por trás de condutores que veem os radares, móveis ou fixos, blitzen e até mesmo um simples semáforo como os inimigos do trânsito e não como ferramentas capazes de ajudar a tirar Teresina dos piores índices em relação ao tráfego de veículos?! Faz parte da cultura do piauiense (talvez do brasileiro) pensar sempre no “jeitinho”.

A falta de educação no trânsito é a causa, por exemplo, de acidentes em que alguns condutores preferem acelerar para ultrapassar logo do que desacelerar para ficar onde está quanto estão próximos ao sinal amarelo. É aí que surgem casos como o de um motorista embriagado como Moaci Junior, estudante que, segundo a acusação, dirigia embriagado, e provocou o acidente que vitimou dois irmãos, membros do coletivo Salve Rainha? Somam-se a isso a alta velocidade, ultrapassagens desnecessárias, estacionamentos em calçadas e em vagas exclusivas para idosos e deficientes e o desrespeito aos pedestres que esperam milagrosamente um condutor com bom senso parar.

A nossa reportagem foi às ruas acompanhar o trânsito de Teresina de perto. Será que existe mesmo uma indústria da multa ou a culpa é mesmo da péssima educação no trânsito por parte dos próprios condutores?! Em um período de apenas uma hora em pontos cruciais na zona Leste de Teresina, os flagrantes de infrações impressionam, como mostra o vídeo abaixo. E não, esta reportagem não tem a intenção  de salvar o “filme queimado” da Strans (Superintendência Municipal de Trânsito). Ela tem sua parcela de culpa. A imagem que se tem dos “amarelinhos”, nomes dados aos agentes, é a de que preferem multar a apenas alertar. Talvez uma forma melhor de repassar essa educação no trânsito evitasse as críticas e a péssima imagem que a Strans tem da sociedade.

É um fato: a má educação domina o trânsito de Teresina. Entre os trechos do vídeo acima, está o retorno na avenida Jockey Club, no trecho bem próximo à rua Professor Joca Vieira. Já são poucos os retornos na cidade -para dar mais fluidez no trânsito- e os poucos que ainda têm não são usados da forma correta por vários condutores. É comum ver, especialmente neste trecho, motoristas que vêm, nos dois sentidos, entrando na primeira parte do contorno, causando um caos no trânsito da região. Outra infração comum constatada pela reportagem: condutores que fazem manobras proibidas ao pegar o sinal, com mostra o vídeo acima de um flagra na avenida Nossa Senhora de Fátima.

A Strans chegou a divulgar este infográfico para orientar melhor os condutores (Foto: Reprodução)

Trânsito em Teresina: há quem prefira dar seu jeitinho e passar no sinal amarelo (Foto: OitoMeia)

Investir em fiscalização, tendo medidas socioeducativas e até mesmo punitivas financeiras como consequências, é mais que necessário num contexto em que o respeito mútuo ainda não foi assimilado por quem teve um ano para receber toda a formação necessária para se tornar um motorista digno de portar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Para Levi Gomes Sousa, ex-diretor de Fiscalização e da Escola Piauiense de Trânsito do Detran-PI, um especialista na área, a responsabilidade maior é sim do condutor. Ele condena tanta aversão às medidas que visam democratizar o espaço público destinado ao tráfego de veículos.

Levi Gomes, especialista, defende a ampliação da fiscalização eletrônica no trânsito de Teresina (Foto: Ricardo Morais / OitoMeia)

Em suas palestras, o especialista diz que a tecnologia é uma aliada do bom trânsito, seja em qual cidade for.  “A capital como um todo, em Teresina, já há um controle do trânsito por meio de câmeras e de equipamentos como os radares móveis e estáticos. Isso gera a possibilidade real da inibição de muitas infrações. Deixa de ser um terreno sem lei para ser um território controlado devido à aquisição de tecnologias”, afirmou. Levi considera o lema “quem não deve não teme”. Isto é, o bom condutor, aquele que cumpre as regras e leis e está com sua documentação em dia, não critica a atuação de agentes de trânsito.

TRÂNSITO VIOLENTO

Um relatório anual da Seguradora Líder-DPVAT, publicado em 1º de abril deste ano, traz dados de 2018 que colocam Teresina entre as cinco capitais mais violentas no trânsito pelo segundo ano consecutivo. No ano passado, a maior cidade do Piauí foi a quarta onde houve mais indenizações pagas por conta de acidentes – 2.968 pagamentos. Já em 2017, a posição ocupada foi a terceira – 3.458 pagamentos. Os números são proporcionais à frota de veículos, que atualmente já está em 487 mil.

Assim, para cada 10 mil veículos, 61 indenizações foram pagas nas três coberturas do Seguro DPVAT. Em São Paulo, a capital melhor colocada, foram 10 pagamentos para cada 10 mil veículos. Vale ressaltar que a frota paulistana ultrapassa os 8,2 milhões. Em 2017, a Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) divulgou o Relatório da Violência no Trânsito em Teresina, com base em ocorrências registradas na Polícia Civil. Na ocasião, 3.186 vítimas letais e não letais foram contabilizadas – lesão corporal culposa no trânsito, lesão corporal acidental no trânsito, homicídio culposo no trânsito e morte acidental no trânsito.

Relatório da Violência no Trânsito em Teresina contabilizou mais de 3 mil vítimas (Divulgação SSP-PI)

PRINCIPAIS INFRAÇÕES

A nossa redação procurou a própria Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito para ter acesso a dados sobre as principais infrações na capital. E a Strans mostrou os números baseados nos registros datados de 1º de janeiro a 30 de abril deste de 2019. É possível perceber que a maioria das infrações dizem respeito à má educação do condutor. As principais multas são as seguintes:

1 – Transitar em velocidade superior à máxima permitida em até 20% corresponde a 44,62% das infrações;

2 – Estacionar em local/horário proibido especificamente pela sinalização corresponde a 8,98% das infrações;

3 – Transitar na faixa ou via de trânsito exclusivo, regulamentada com circulação destinada ônibus, corresponde a 7,84% das infrações.

Quem se pronunciou pela Strans à reportagem foi o coronel Jaime Oliveira, diretor de Operação e Fiscalização da Strans, reagindo à existência da chamada “indústria da multa” e destacando que só existem tais punições porque há motoristas que descumprem as normas previstas no Código Brasileiro de Trânsito (CTB). O entrevistado aproveitou para destacar que todo o perímetro urbano da cidade possui sinalização adequada e que os agentes da superintendência são impossibilitados de autuarem onde não existe.

Strans: será mesmo que está fazendo a sua parte no controle e orientação do trânsito da cidade?! (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

A CULPA É MESMO DA MÁ EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO

“Eu conheço todas as capitais do país, exceto Palmas. Eu posse te garantir que Teresina tem uma das melhores sinalizações do país. Acontece que o brasileiro não tem a cultura de respeitar as normas, sobretudo as leis de trânsito. O cidadão tem que ter a consciência de que não se pode estacionar em local proibido porque ali tem uma sinalização que diz exatamente isso”, desabafou o coronel, responsabilizando o condutor e a sua má educação pelo excessivo número de multas no trânsito. A fiscalização eletrônica de Teresina é composta por câmeras e radares fixos, portáteis e estáticos (móveis com tripé). O último modelo foi o alvo do motociclista “justiceiro”. Para a Strans, um criminoso. A promessa do coronel Jaime é autuar em flagrante a ação do meliante.

O coronel informa ainda que os condutores não têm desculpa para culpar a Strans ou qualquer órgão (aparelho) que sirva para contribuir na organização do trânsito. A Strans está divulgando, semanalmente, no site da Prefeitura, os pontos de instalação desses equipamentos de controle do trânsito. Na prática, os maus condutores são alertados quanto à possibilidade de multas, mas as recomendações parecem entrar por um ouvido e sair pelo outro. Mesmo sabendo onde estão os radares, os controles de trânsito, ainda são registradas multas. Abaixo, a divulgação feita durante toda esta semana. Para quem quiser conferir, segue o link do site da Prefeitura de Teresina: https://pmt.pi.gov.br/localizacao-de-radares .

Radares móveis e estatísticos: toda semana a PMT informa onde eles estão (Foto: Reprodução)

“SÓ OBEDECE AQUILO QUE SE IMPÕE”, DIZ ESPECIALISTA

Levi Gomes, que profere palestras por todo o País, sobre a educação no trânsito, considera que não há muitas desculpas sobre o infrator não ser punido, levando em consideração o tempo gasto que o mesmo levou para se habilitar. “O Estado deve ter o seu aparelho fiscalizatório à altura dessa situação porque o ser humano só obedece aquilo que se impõe com certa disciplina. É com os equipamentos de fiscalização, sobretudo as câmeras, que o Estado pune as condutas erradas para tornar o trânsito mais democrático. O próprio Código Brasileiro de Trânsito frisa que o trânsito é a convivência harmoniosa entre, inicialmente, o pedestre. Para que se discipline tudo isso, temos antes a legislação, que deve ser bem aceita por todos, e também o aparato fiscalizatório”.

Por fim, o que espera-se dos condutores é um mínimo de bom senso. O desrespeito às leis é o que gera a punição, seja com multas ou, claro, acidentes como o citado na reportagem. O Brasil conta com o Código Nacional de Trânsito para regulamentar o fluxo entre veículos e pedestres. A educação no trânsito precisa vir desde cedo, com a mesma educação dada pelos pais e pelas escolas aos seus filhos. Seja exemplo! E como o assunto é trânsito, não é clichê repetir e exigir que se coloquem em prática o que todos já sabem: não beber antes de dirigir, revisar o veículo periodicamente, não ultrapassar em lugares proibidos e respeitar os limites de velocidade.