Não é difícil perceber que nossa sociedade não compreende a dimensão da problemática da segurança no trânsito no Brasil.

Essa questão é um entrave para superar esse drama. Infelizmente, a segurança no trânsito não é uma demanda da população, o que enfraquece as políticas públicas voltadas ao problema. O que não é cobrado, não é lembrado. E, enquanto isso, morrem cerca de 40.000 pessoas nas ruas e estradas do País todo ano. Um avião de passageiros caindo todo dia. Essa estatística nos coloca na incômoda terceira posição entre os países que mais matam no trânsito, segundo a ONU. Ficamos atrás apenas de China e Índia. Para comparar, a guerra na Síria matou cerca de 34 mil pessoas em 2017.

Apesar do trágico cenário brasileiro, países como Suécia e Espanha conseguiram resultados positivos ao aplicar estratégias multissetoriais, baseadas em evidências e admitindo que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Em todos esses países uma legislação e fiscalização rígidas são importantes aliadas no emfretamento desse problema, ao desestimular comportamentos de risco como beber e dirigir, não uso do capacete ou do cinto e excesso de velocidade.

Me preocupa a intenção do governo federal de flexibilizar a legislação para suspensão da CNH e de suprimir a fiscalização eletrônica nas rodovias federais. Aumentar para 40 pontos o limite para suspensão da CNH reduzirá o receio de ter a carteira suspensa, induzindo um comportamento de risco dos condutores. A proposta de remoção da fiscalização eletrônica me parece ainda mais grave. As evidências de que esses dispositivos induzem um comportamento seguro e ajuda a reduzir mortes e lesões são diversas. Estudo da London School of Economics concluiu que esses equipamentos reduziram cerca de 60% a quantidade de vítimas fatais na Inglaterra. A não utilização desses dispositivos em nossas rodovias irá enfraquecer a política de segurança viária e o resultado será um aumento nas mortes e feridos. Quem se responsabilizará?

Nosso trânsito mata mais que a maior guerra da atualidade e a superação desse problema não é trivial. Precisamos unir esforços, nos espelhar em boas práticas e tomar decisões baseadas em evidências. Precisamos que as políticas públicas voltadas para a prevenção de mortes e lesões no trânsito avancem ao invés de retroceder.

Dante Rosado Coordenador Executivo da Iniciativa Bloomberg em Fortaleza (Foto: Dante Rosado)

Fonte: O Povo