Schumacher foi um dos maiores pilotos de todos os tempos – Foto: Motorsport Images

Quem assiste ao documentário sobre Michael Schumacher tem apenas uma vaga ideia do estado de saúde do heptacampeão mundial de Fórmula-1. Nada de concreto é revelado nos depoimentos da família sobre a condição atual do ex-piloto alemão, que recebe cuidados em sua casa, na Suíça, desde o acidente de esqui sofrido em 2013.

“Schumacher” põe o foco na trajetória pessoal e profissional do ex-piloto, que teve o recorde de 91 vitórias superado pelo inglês Lewis Hamilton no final do ano passado. Mais interessada em resgatar o passado glorioso de Schumacher, como uma lenda do automobilismo, a produção ajuda a família a manter a sua privacidade e os segredos sobre sua saúde.

“Vivemos juntos em casa. Fazemos terapia”, contou a mulher de Schumacher, Corinna, no filme que estreia no dia 15 de setembro no catálogo da Netflix. É uma das raras entrevistas que ela concedeu desde o acidente em Méribel, nos Alpes Franceses.

Só se sabe que a pancada sofrida pelo marido o colocou inicialmente em coma e, seis meses depois, ao acordar, em 2014, o traumatismo craniano o deixou com graves sequelas. Não há informações sobre sua recuperação ou se o quadro é mesmo irreversível.

“Fazemos todo o possível para deixar Michael melhor e mais confortável. E para que ele sinta a nossa família, nosso vínculo”, disse Corinna, apontada como a responsável pela “blindagem”. Foram poucas as declarações feitas pelo porta-voz da família, e só pessoas muitas próximas são autorizadas a visitar Schumacher.

“O privado é privado, como Michael sempre disse. É muito importante para mim que ele continue a desfrutar de sua vida privada tanto quanto possível. Michael sempre nos protegeu, e agora nós o protegemos”, afirmou ela, acrescentando que tem saudades do marido todos os dias. “Michael está aqui. Diferente, mas está. E e isso nos dá força.”

O projeto de documentário não partiu da família, ainda que os Schumachers participem do filme. Além da esposa, dão depoimentos o pai Rolf, o irmão Ralf e os filhos Gina e Mick (este último já segue os passos do pai no automobilismo, correndo pela Haas).

O filme foi uma iniciativa dos produtores Vanessa Nöcker e Benjamin Seikel, responsáveis por “Boris Becker – The Player”, lançado em 2017. Além de cuidar da produção, Vanessa acabou dirigindo documentário, em parceria com Hanns-Bruno Kammertöns e Michael Wech.

Inicialmente, a ideia era comemorar os 50 anos de Schumacher, completados em 2019, mas o processo foi demorado devido à “fortaleza construída em torno de Michael Schumacher’’ (como foi definido pelo produtor Seikel, no material de divulgação do filme).

Para convencer a família a apoiar o projeto, a produção se concentrou na personalidade de Schumacher, explorando o que fez dele um ícone do automobilismo, além de mostrar a faceta mais humana, pouco vista durante seus anos como piloto de F-1. Ele passou pelas equipes da Jordan (1991), Benetton (1991-1995), Ferrari (1996-2006) e Mercedes (2010-2012).

“100% de perfeição. Alcançar isso é o meu objetivo. Sou esse tipo de pessoa”, disse Schumacher, em narração em off no filme. “Não gosto muito de falar sobre minhas qualidades porque pareceria arrogante. E não gosto de falar sobre meus fracassos porque é trabalho de vocês encontrá-los”, completou o automobilista.

A sua trajetória do piloto que até hoje detém o recorde de voltas mais rápidas (com 77), é revisitada com material de arquivo, incluindo fotos de Schumacher, ainda criança, já montado nos carrinhos de kart. Os sacrifícios da família de origem humilde, para que ele pudesse treinar e se profissionalizar como piloto, são lembrados pelo pai.

Ayrton Senna também é relembrado no filme. Inicialmente como um ídolo de Schumacher, que cresceu com o pôster do brasileiro na parede do quarto

Seus anos de ouro, na Ferrari, onde conquistou cinco títulos consecutivos, ganham destaque. Depoimentos de quem trabalhou com ele nas pistas assinalam a determinação, a disciplina, o conhecimento técnico e a atenção que Schumacher dava aos detalhes.

Piero Ferrari, o vice-presidente da Ferrari; Bernie Ecclestone, ex-CEO da Formula One Management; e o ex-empresário Willi Weber são alguns dos entrevistados.

Ayrton Senna também é relembrado no filme. Inicialmente como um ídolo de Schumacher, que cresceu com o pôster do brasileiro na parede do quarto. Só mais tarde é que Senna se tornaria seu adversário.

Há imagens de Senna dando bronca em Schumacher no GP da França de 1992. Naquele ano, o alemão, que ainda era um novato, tirou os dois da corrida, ao provocar um acidente logo na primeira volta. Como ele ainda falou mal do brasileiro à imprensa, Senna foi tirar satisfações, e as câmeras registraram o bate-boca.

Schumacher ganhou cinco títulos mundiais pela Ferrari – Foto: StockAdobe

O documentário ainda mostra cenas do GP de San Marino, de 1994, em que Senna sofreu o acidente fatal – corrida que acabou vencida por Schumacher. Alguns sugerem no filme que Senna pode ter batido o carro devido à pressão que sentia para não dar chance a Schumacher, que vinha logo atrás dele na corrida. O alemão era quem mais o desafiava naquele momento na F-1.

Trechos de entrevistas de Schumacher, ainda perplexo pela morte de Senna, também são resgatados. “Quando subi ao podium (na corrida de San Marino), me disseram que ele estava em coma. Mas isso podia significar muitas coisas, inclusive que ele estaria ok no dia seguinte”, afirmou Schumacher.

Essas cenas são particularmente desconcertantes de rever hoje, por trazer um Schumacher jovem, lamentando o infortúnio do rival, sem imaginar que uma tragédia também marcaria o seu destino. Quando sofreu o acidente, o alemão tinha 44 anos, dez a mais do que tinha Senna ao bater o carro contra o muro, em Ímola.

“Com as informações do neofeed